|
Rodízio de Chuchu - Nunca a nudez e o sexo foram tão abertamente exibidos na nossa sociedade. É quase impossível passar um dia sem ver corpos nus ou casais em cenas claramente sensuais, exibidos para todo lado, de sites na internet a capas de jornais. Essa transformação da libido em mercadoria é uma forma de controle do sexo mais eficiente que a repressão? Jurandir Freire Costa - A inscrição do sexo no circuito da mercadoria é, com certeza, uma forma de articular o prazer sexual na lógica do mercado. Ou seja, não estamos mais, com antes, utilizando o sexo para vender mercadorias; o próprio sexo, hoje, é a mercadoria. Traduzido em termos mais simples, isto quer dizer que o sexo não é mais algo da vida privada, da intimidade, do segredo pessoal não sujeito ao escrutínio público. O sexo, tal como se apresenta no comércio de excitação, se tornou um "emblema", um "brasão" dos indivíduos considerados "bem-sucedidos" econômica e socialmente. Os chamados "vencedores" possuem, entre outros "bens", uma vida sexual que serve de exemplo, que é vendida publicamente para ser "imitada" pelos que ainda não chegaram lá. Se você observar com atenção, tudo que é dito sobre sexo concerne pessoas ricas, jovens, bonitas, famosas, "inteligentes" etc. No fundo, o sexo não vende um produto qualquer; ele vende "tipos humanos", "figurinos de indivíduos" que são os que mais se adaptam e ajudam a manter o modo de vida das sociedades ocidentais contemporâneas e das sociedades culturalmente colonizadas como a brasileira. - Como chegamos a este estágio de exibicionismo e de consumo do corpo e do sexo? Jurandir - No início da hegemonia capitalista no Ocidente, a adesão aos valores hegemônicos era imposta em nome do trabalho, da ética religiosa, da tradição familiar, do amor à pátria etc. Quanto mais disciplinados e reprimidos fôssemos no corpo e na alma, melhores trabalhadores, pais de família, religiosos e cidadãos seríamos. Hoje nos pedem que esqueçamos tudo isso. Não existe trabalho para todos, a família foi posta de lado, a idéia de pátria ou nação se tornou arcaica e obsoleta. Restou a competição feroz, a indiferença em relação aos miseráveis, a exploração cruel dos que ainda trabalham, a violência urbana, a epidemia de drogadições, a degradação do meio ambiente e outras tragédias que todos conhecemos. Como, então, seduzir, conquistar, convencer os indivíduos que, mesmo com tudo isso, esse sistema em que vivemos "é o melhor, o mais avançado, o mais moderno, o mais desejável"? A solução foi persuadir os indivíduos que nesse sistema temos possibilidades de ter "mais prazer, mais excitação, mais êxtases cotidianos" do que em qualquer outro conhecido! O sexo passou, assim, a ser uma espécie de "vitrine" dourada fabricada para ocultar a sarjeta moral que temos diante dos nossos olhos e narizes. Antes o sexo reprimido era utilizado para mostrar as "virtudes angelicais" da ética do capitalismo, como disse Max Weber; hoje o sexo é manipulado para exaltar a "liberdade do prazer" que só podemos ter se abrirmos mão de qualquer crença contrária ao modo dominante de vida. Não é por acaso que grande parte da propaganda ocidental contra o obscurantismo dos chamados "fundamentalismos fanáticos" se escora nos casos de opressão da sexualidade! É óbvio que, com isso, não pretendo, de forma alguma, justificar os atentados à liberdade e aos direitos humanos existentes nessas culturas. Estou chamando a atenção para o papel do sexo como "garoto-propaganda" do capitalismo global. - Por outro lado, existe um grande incentivo à busca do prazer sexual. Este seria um aspecto "positivo" deste processo? Jurandir - O único aspecto positivo da "banalização da sexualidade" que consigo ver é o fato de abandonarmos, talvez, a veneranda idéia ocidental que preferências, inclinações, práticas ou características sexuais têm a ver, necessariamente, com valor ético. Ou seja, acreditamos, até agora, que aquilo que se é ou se faz, do ponto de vista sexual, define o que se é, do ponto de vista moral. Isso pode estar mudando, a medida que o sexo vai se tornando algo tão trivial quanto qualquer outra manifestação da conduta humana. Ora, foi porque aprendemos a dar uma "enorme importância moral" a sexualidade, que criamos preconceitos sexuais que infelicitaram e ainda atormentam milhões de seres humanos em todo mundo. Basta relembrar o que os homens foram capazes de fazer com as mulheres que "não eram mais virgens". Em nome do tabu da virgindade chegou-se até a justificar a brutalidade dos crimes de honra! Pois bem, se aprendermos a não ver o sexo como o "Supremo Mal" ou o "Supremo Bem" da vida, talvez venhamos a abandoná-lo como critério para avaliar moralmente as pessoas. Em geral, só consideramos matéria, pivô, de discussão ética aquilo que julgamos fundamental para nossa vida moral. Desse aspecto, a trivialização do sexo pode vir a ser um ganho moral, independente das intenções dos comerciantes de sexualidade, na forma pornográfica ou no formato para "pais de família" e "donas de casa". - Casada, mãe de família, Luma de Oliveira é também um dos mais persistentes símbolos sexuais do Brasil. Há pouco tempo, fez furor uma foto sua feita de um ângulo que mostrava uma calcinha transparente sob um vestido curtíssimo. A modelo reclamou da foto feita de ângulo maroto, os fotógrafos retrucaram que só tinham fotografado o que estava sendo exibido. A privacidade é um direito em extinção no mundo? Jurandir - Não tomei conhecimento do episódio. Seja como for, acho que a privacidade, de fato, está com os dias contados. Pelo menos a privacidade tal como foi definida e vivida nos últimos três séculos de revolução republicana e democrática. O privado foi criado como contrapartida do público. O privado, em particular o familiar, era considerado o lugar de repouso, o lugar em estávamos à vontade, em que podíamos ser espontâneos, confiantes na presença daqueles que nos eram mais próximos. Ora, os lares se tornaram lugar de adoração e culto as imagens publicitárias que, na maioria das vezes, não fazem senão incentivar as chamadas "guerras de sexo" ou de "gerações". Se não é isso, é a exibição do sexo como mercadoria ou da violência crua, sem interpretação ou reflexão, que só faz desenvolver o sentimento de impotência moral e social das pessoas. Pois bem, para que serve, então, a "privacidade"? Para nada. Ela não nos ajuda em nada a viver no "mundo sem compaixão", como disse Hegel, pela simples razão de que as regras desse mundo se tornaram as mesmas, dentro ou fora de casa. - Programas de televisão e sites da internet que oferecem a oportunidade de espiar permanentemente a intimidade de pessoas, famosas ou não, são hoje sucesso garantido. Qual a razão deste surto de voyeurismo? Jurandir - Se já não confiamos mais nas opiniões morais das pessoas mais velhas, dos pais, dos professores, dos religiosos, dos grandes líderes políticos de antes, dos intelectuais, dos pensadores etc, em quais fontes iremos buscar a aprovação de nossos desejos e condutas? Temos que passar a observar "diretamente", na nudez dos corpos ou da intimidade, aquilo que possa nos dizer como somos ou como devemos ser! Veja bem, não faço parte do grupo de pessoas que querem "diabolizar" a internet ou a televisão. Acho esses dois meios de comunicação maravilhas do engenho humano. O que quero dizer é que o engodo desse "voyeurismo" está no fato de que os indivíduos acabam descobrindo o que já sabem, ou seja, que os outros são exatamente iguais a eles no modo de pensar, agir, sentir, desejar, querer, ter prazer etc. Em última instância, esse voyeurismo social eqüivale, como disse Wittgenstein, a testar a fidedignidade da informação de um jornal, consultando vários exemplares do mesmo jornal. Das duas uma: ou esse tipo de espetáculo vai apelar cada vez mais para o escabroso - que é a saída da pornografia - ou vai perder todo o interesse e se tornar tão atraente e excitante quanto - com perdão da gíria - "um rodízio de chuchu". - Diante da exacerbação do sexo, como é possível que permaneça a idéia romântica do casamento e da fidelidade conjugal? Jurandir - Esses ideais persistem como o "último porto" onde pode se abrigar nosso desejo de ser "algo mais" além de sexos e corpos consumidores de sensações e produtos industriais. Por mais que queiramos encabrestar a liberdade humana, somos seres de imaginação que jamais estarão satisfeitos ou saciados com o que lhes é oferecido. Queremos sempre ir adiante, queremos sempre outra coisa, e é nisso que confio para acreditar que vamos ultrapassar esse período de "entressafra" na produção de sonhos de uma vida melhor e mais digna. A saída amorosa e a da fidelidade são como que as últimas trincheiras de uma cultura sitiada pela "moral do dinheiro", ou seja, pelo incentivo obsceno à voracidade, a inveja, a ganância, ao cinismo e a corrupção. Mas acredito que outros sonhos virão engrossar as fileiras dos que querem voltar a se interessar pelo mundo e pelos outros, de uma maneira nova, sem saudosismos passadistas, mas também sem rendição ao que de pior fomos capazes de inventar. - Contraditoriamente, esta ênfase no sexo e no prazer pode significar a infantilização de homens e mulheres? Jurandir - Não creio que os adultos estejam se infantilizando - quem dera! Estamos encolhendo nossa capacidade criativa, fazendo-a girar em torno de nosso sexo e de nossos corpos, mas com os instrumentos de força, violência e dissuasão físico-morais que só adultos podem ter. Isso é o pior. Empregamos nossa potência para os fins mais tacanhos e irrelevantes. Ainda bem que já existem milhares, quando não milhões, de outros adultos, brasileiros como nós, que saíram dessa apatia e dessa "obsessão perniciosa" consigo para olhar o mundo ao redor. Outro dia li uma estatística na qual era dito que o número de brasileiros engajados em trabalhos de voluntariado ou em trabalhos remunerados com fins sociais já somava algo em torno de três milhões de pessoas. Isso é animador; isso é mostra que somos mais, muito mais, que as imagens estereotipadas, apequenadas, grudadas na própria pele, que nos querem obrigar a engolir espírito a dentro.
|
© Todos os direitos reservados aos respectivos autores - 2003
.jpg)